Estádio do Espelho
A imagem corporal do bebê amadurece aos poucos na medida em que ele experimenta o toque, a exploração do espaço, a manipulação e contato com objetos. A idéia de separação de seu corpo de outros corpos e objetos se dá gradativamente. A percepção da existência do corpo próprio, individual, se dá por volta dos 18 meses. A grande importância da fase do espelho, quando a criança vê sua imagem projetada no espelho. Até então, a imagem de seu corpo encontra-se incompleta, fragmentada. A imagem do todo acontece quando ela se vê no espelho. Ela passa então da imagem do corpo fragmentado à compreensão da unidade de seu corpo como um todo organizado.
Como sua coordenação motora é muito imatura nesta idade, a criança tem uma impressão fragmentada e desordenada de seu corpo. É ao se ver como imagem no espelho que ela passará a desenvolver uma impressão a respeito de si mesma. É o espelho (o outro) que lhe diz quem é. Estendendo tal conceito para o campo da comunicação, podemos afirmar que é também a partir do outro que o nosso eu se constituirá.
Freud quando escreveu a sua obra "Introdução ao narcisismo”, já havia percebido que não existe, no início, uma unidade compatível ao eu do indivíduo, devendo esse eu ser construído, desenvolvido. No seu texto sobre o estádio do espelho, Lacan veio dar conta exatamente dessa constituição da função do eu que Freud mencionara sem desenvolver. Para melhor esclarecer sua idéia, a fase do espelho, Lacan se utilizou do esquema ótico, ou melhor, de um certo uso do esquema ótico, que fosse capaz de introduzir, além da constituição do eu, também a função do sujeito na constituição do ser humano.
O estádio do espelho se refere ao período em que o bebê, na idade entre seis e dezoito meses mostra grande interesse em sua própria imagem no espelho. Lacan explicou esse interesse tomando como referência o fato de que o bebe humano é, de fato, desde a origem, em seu nascimento, um prematuro, fisiologicamente falando. Sendo assim ele está em uma posição de desamparo. A criança reage quando se reconhece em sua forma no espelho, a imagem é, sem dúvida, a sua, mas ao mesmo tempo é a de um outro, pois está em distante com relação a ela.
Devido a esta distância, a imagem de fato prende a atenção da criança e esta se identifica com ela. Com esta idéia em mente Lacan idealizou a alienação imaginária, quer dizer, o fato de identificar-se com a imagem de um outro, é constitutiva do eu (moi) no homem, e que o desenvolvimento do ser humano está escondido por identificações ideais. É um desenvolvimento no qual o imaginário está presente e não um puro e simples acontecimento fisiológico.
No entanto, este processo não se dá exclusivamente no registro imaginário. Ele insiste em várias ocasiões sobre a idéia que a antecipação da imagem corporal completa depende da confirmação e do reconhecimento pelo adulto de que esta imagem que a criança olha no espelho é efetivamente a dela própria, a criança precisa da confirmação de sua imagem pelo adulto. Sem a intervenção de tal confirmação, dessa vez simbólica (o reconhecimento pelo adulto), nada da ordem da instauração de uma imagem estável de um corpo próprio seria possível. É neste sentido que Lacan afirma que a verdadeira constituição do sujeito passa pelo outro, portanto é barrada desde o início. Qualquer problema que ocorra na confirmação deste reconhecimento simbólico inicial abala a própria estabilidade da imagem do eu. Aqui acontece um risco muito grande de desabamento.
A constituição do sujeito acontece durante o estádio do espelho e começa com o reconhecimento da identidade próprio do eu através da imagem do espelho em um jogo de oscilação entre o eu e o outro. O ego se projeta nas imagens em que se espelha: imaginário da natureza, do corpo, da mente, das relações sociais. O significante inaugural ou primordial existe antes do sujeito existir, quando ele ainda está em formação. A marcação do outro já ocorre antes da formação do sujeito, sua constituição á barrada, pois a este processo deixa falta. A identificação do eu ocorre através do discurso materno que imprime no corpo da criança as primeiras marcas. É desta forma que é constituída a formação do sujeito, juntamente com a imagem corporal.
A construção desta imagem corporal é constituinte do sujeito e vai elaborando-se no caminho histórico da experiência da vivência. Sobre a imagem corporal acontecem as possibilidades de relação do sujeito com seu corpo. Desde a infância, o homem fica referido à ilusão oferecida pela imagem forjada no estádio do espelho. É importante ressaltar que, para constituir seu espaço e corpo próprio, além de identificar-se com a imagem do espelho, a criança precisa operar a separação dela. Ou seja: deve constituir um espaço e um corpo diferentes do corpo materno. Isto implica que, além de um domínio imaginário do corpo, a criança tem que passar a exercer um domínio simbólico, um corpo que se existe além do olhar materno.
Segundo Lacan a fase do espelho processa-se em três fases fundamentais:
· Em um primeiro momento, o bebe percebe seu reflexo no espelho, como se fosse um outro ser real, do qual procura aproximar-se ou apoderar-se. Esta imagem é, para ele, outra pessoa que é procurada atrás do espelho.
· Em uma segunda fase, a criança percebe que o outro do espelho não é um ser real, que não passa de uma imagem e, por isso, ela não vai mais procurá-lo atrás do espelho.
· A terceira fase consiste no fato de a criança já saber que o refletido no espelho é apenas uma imagem dela própria. Nessa ocasião, ela gosta de brincar com os movimentos do seu próprio corpo no espelho.
