MARCELO SOARES COTTA - CRT 43238
Terapeuta Holístico

Fobia Social

      Apresentação: Ariane Fernandes - Data: 18/02/2008 (segunda-feira) - Horário: 10h

Entrevistado: Marcelo Soares Cotta

Cabeça: Muita gente sente um pouco de timidez e insegurança em ambientes estranhos. Estar sob o olhar dos outros, muitas vezes incomoda. Mas, quando esse incômodo se transforma em um medo excessivo e angustiante é hora de procurar ajuda. 

1)      O que é Fobia Social

Ansiedade social todos nós temos. É normal sentir certo grau de preocupação com a imagem, e ao falar com uma autoridade ou com uma pessoa que não conhecemos, mas a maioria consegue lidar com essa sensação de desconforto. Algumas pessoas, porém, a evitam, de modo tão intenso que comprometem a sua qualidade de vida. As pessoas reconhecem que o medo é irracional e não conseguem reagir mesmo assim. Esse tipo de fuga fóbica é o que chamamos de fobia social.

Vale ressaltar a importância do outro (outra pessoa) neste sintoma. Pode ser visto até como um certo paradoxo entre sua posição para se expor ao outro e, no entanto o seu sentimento é de uma profunda solidão. 

2)      Fobia Social é um distúrbio recente?

As fobias são sintomas muito antigos. Antigamente as mais estudadas eram fobias de animais, como cavalos, cobras, etc. A fobia social também é antiga, porém hoje apresentações, palestras, aulas, reuniões, um convívio profissional mais intenso, são situações corriqueiras fazendo com que a fobia social apareça com maior freqüência. 

3)      Qual é o limite entre timidez aceitável e fobia social?

Os limites são individuais. Cada pessoa de acordo com o modo de vida escolhido, profissão, temperamento, etc, deve analisar o tamanho do incomodo que sofre com esse transtorno. O que deve ficar claro é que a fuga do problema somente faz com que ele cresça. A partir do momento em que a pessoa está sofrendo com as perdas profissionais e pessoais decorrentes de sua fobia ela deve procurar ajuda. Quando o comportamento fóbico compromete a qualidade de vida a pessoa deve procurar ajuda. 

4)      Há fobias que aparecem em apenas algumas situações?

Sim. Pessoas com esse sintoma podem ser tomadas por uma sensação de ansiedade excessiva quando desempenham tarefas específicas relacionadas com outras pessoas, como comer num restaurante, assinar um cheque ou outro documento qualquer, participar de uma dinâmica de grupo, de um seminário na faculdade, de uma entrevista de emprego e, principalmente, falar em público. Podem até existir situações similares em que a pessoa responde de maneira diferente. Vai fazer uma apresentação na escola um dia e simplesmente não consegue, em outra oportunidade ela poderá realizar a tarefa. Contudo existem casos em que os sintomas vão crescendo gradualmente: um dia não consegue fazer uma apresentação, depois a pessoa evita situações que exigem o contato interpessoal (ir a festas, ser apresentada a estranhos, iniciar uma paquera), etc. A pessoa teme ser avaliada e de fato está sob avaliação num número enorme de situações, na verdade, todos nós estamos sendo avaliados o tempo todo.  

5)      Quais são as causas desse distúrbio?

A família e os pais são o primeiro modelo que a criança conhece. É através desse exemplo que elas observam como eles lidam com a adversidade, a maneira como enxergam o ambiente social, se são tímidos ou têm muitos amigos, essa experiência nos primeiros anos de vida é muito importante. Crianças provocadas e maltratadas pelos colegas de escola, que vivenciam experiências marcantes de rejeição e sofrimento no relacionamento com os outros, são mais suscetíveis ao aparecimento da fobia social na vida adulta. Pessoas com fobia social têm uma sensibilidade mais aguçada para se sentirem humilhados ou rejeitados em situações de relações entre pessoas, normalmente em contextos que incluam pessoas desconhecidas, pouco íntimas ou muito críticas, do sexo oposto, ou autoridades. Por trás disso, existe o medo excessivo de ficarem embaraçados ou humilhados na frente dos outros. Essa é a essência da fobia social. As causas são psíquicas e individuais. Não se pode generalizar a origem da fobia social. Cada indivíduo tem respostas e ganhos diferentes para as mesmas situações. É importante salientar que as pessoas não têm somente malefícios com este sintoma. Existe o que chamamos de ganho secundário com o sintoma, que podem ser desde uma fuga de lidar com as opiniões de outras pessoas até um ganho afetivo das pessoas próximas, uma certa proteção social. 

6)      O que a pessoa com este distúrbio sente nos momentos de crise?

Normalmente os efeitos são uma sudorese excessiva, sensação de ansiedade, taquicardia, falta de ar, mãos geladas e úmidas, desconforto intestinal, ondas de calor, rosto ruborizado, tonturas. É bom salientar que variam de pessoa para pessoa. 

7)      As características físicas da criança colaboram para um maior isolamento social?

Crianças com alguma deformidade ou qualquer outra característica diferente podem representar um fator de risco, porém a fobia social está ligada ao temperamento da pessoa e à sua maneira de lidar com a pressão do grupo a que todos estamos expostos. As características físicas são fatores que podem levar a uma maior timidez da pessoa, forçando a evitar situações de exposição social, porém o mais importante é como a pessoa trabalha essa situação. 

8)      As fobias sociais começam normalmente na infância ou surgem na vida adulta?

O transtorno pode começar na infância, arrastar-se pela adolescência e atingir o adulto. Quanto mais cedo for identificado e enfrentado, melhores serão os resultados e menos sofrimento trará para seus portadores. As instituições de ensino desenvolvem cada vez mais cedo as capacidades das crianças, podendo com o exagero e também pressão dos pais levarem assim ao stress infantil. Na vida adulta, no entanto, a proteção dos pais da lugar ao solitário momento de definições pessoais e profissionais, fazendo com que a fuga do problema não possa ser mais uma opção. 

9)      Como os pais podem reconhecer a fobia?

Deve-se observar o comportamento das crianças, quando se escondem atrás da mãe quando chega um amigo da família em casa é normal, porém em pouco tempo essa reação muda, dali a pouco estão sentadas no colo da visita, chamando-a de tia ou tio, querendo saber o que faz e onde mora, uma vez que não têm inibição comportamental perante adultos, as que se retraem correm maior risco de desenvolver o problema mais tarde. O ideal é ficar de olho em seus filhos, basta olhar para perceber. É a criança que não quer ir a festas, que se recusa a ter interação com outras crianças da mesma idade, ou se queixa de dor de barriga na hora da aula. Diante da recusa em ir para a escola, os pais devem tomar a iniciativa de falar com os professores para verificar se alguma coisa não está indo bem com a criança. Às vezes, a mudá-la de classe é suficiente, porém esta é uma solução paleativa e deve ser iniciado um processo de diálogo com a criança buscando identificar a origem do problema. 

10) Se os pais não identificam o problema na criança e no adolescente o que pode acontecer com os filhos na fase adulta?

Esse é um transtorno muito inconveniente para a pessoa, porém muito fácil de ser identificado. O melhor é encarar a situação e procurar ajuda. Quando não é identificado na criança é normal o adulto procurar ajuda entre os 20 e os 25 anos de idade. Nessa fase da vida, as exigências são maiores. A pessoa pode estar na faculdade, onde precisa apresentar seminários e trabalhos em grupo, tem as primeiras experiências em estágios e fica clara a necessidade de estabelecer um grupo de amigos ou relacionamentos românticos. 

11) O que é possível fazer em casos de timidez excessiva?

Todos nós nos somos um pouco tímidos, ansiosos e inseguros em certos ambientes e diante de estranhos. Cada um reage a essas situações de uma forma, o grau de timidez varia de pessoa para pessoa. É normal ficar pouco à vontade em algumas situações, porém vencida a inibição inicial, a tendência é irmos nos familiarizando com o ambiente e ficando mais confortável. Entretanto, existem pessoas que fogem dessas experiências de todas as maneiras possíveis. Ficam apavorados só em pensar na possibilidade de viver tais momentos e chegam ao extremo de evitar qualquer contato social. Uma coisa que pode ser feita é colocar a criança em uma atividade em que ela consiga se destacar. Iniciar uma terapia pode ser uma boa solução. 

12) Como é o tratamento de uma pessoa que sofre com esse problema?Existem remédios?

O tratamento da fobia social pode requerer abordagens multi-disciplinares, visto não ser uma doença de causas biológicas somente. Há medicamentos que agem na serotonina e da dopamina, porém esta ação é no efeito e não na causa do problema. Nenhum medicamento vai ensinar um homem de 35 anos a conversar com uma mulher, coisa que deveria ter aprendido num bailinho aos onze, doze anos de idade. As terapias são o tratamento mais indicado uma vez que trabalham a origem do transtorno, fazendo com que a pessoa entenda o motivo de seu comportamento e consiga elimina-lo. 

13) O tratamento costuma ser longo?

Não existem saídas milagrosas para tais situações. O tempo de tratamento depende da subjetividade de cada um. É impossível prever um tempo determinado em que a pessoa possa ter re-elaborado seus traumas e criado novas condições de enfrentar as situações que ela vinha evitando. 

14) O que pode ser feito para prevenir o aparecimento desse tipo de transtorno social?

Há vários níveis de prevenção. Primeiro: é fundamental prestar atenção nos filhos de pacientes fóbico-sociais. Eles constituem o grupo de maior risco. Segundo: a prevenção também pode ser realizada nas escolas, pois nem sempre os profissionais que ali trabalham têm sensibilidade para perceber que algumas crianças estão sendo vitimizadas, o que pode levar à fobia social, especialmente se já tiverem um certo grau de timidez. Sempre dialogar com a criança. Pais chegam em casa cansados e querem que as crianças fiquem brincando e deixando eles descansarem, porém mesmo em suas brincadeiras elas já demonstram as dificuldades que estão sentindo. 

15) Qual o seu conselho para os que sofrem de Fobia Social?

Importante que a pessoa veja que a fobia social interfere na qualidade de vida. Ao deixar de enfrentar essa situação o único que sai perdendo é a própria pessoa. Gostaria também de salientar sobre a necessidade de quebrar o preconceito da sociedade, especialmente os homens que sentem que pedir ajuda diminui sua masculinidade, etc. Homem não chora.

Queria terminar lembrando a importância de como a pessoa encara o sintoma. Existem formas diferentes de enxergar as situações e eliminando um sintoma que te incomoda a pessoa ganha em autoconhecimento, com isso todas as áreas da sua vida saem ganhando: afetiva, profissional, emocional, ela ganha um bem-estar psíquico que influencia o conjunto da vida dela.

Caso queiram esclarecer alguma duvida basta enviar um e-mail para: cotta@psicanalista.com.br ou acessar o site www.cotta.psicanalista.com.br