Freud, ultrapassado?
Primeiramente é mais uma vez espantoso, assim como em outros textos de Freud, a atualidade da mensagem transmitida no texto Moral Sexual Civilizada e Doença Nervosa Moderna (Freud, Sigmund. Volume IX). A descrição da vida dos homens é a mesma de nossos dias, apenas acredito que Freud citaria o celular e a Internet, porém a correria, pressa, utilização do tempo para trabalho, busca de prazeres materiais, aumento das necessidades individuais, até os conflitos socioeconômicos estão descritos, tendo como conseqüência as doenças nervosas.
Criamos uma falsa idéia de que felizes são as pessoas que tem poder, dinheiro, bens. O sucesso é visto não como a felicidade, mas como a conquista de objetivos financeiros, posses, etc. Nessa busca desenfreada por seguir o padrão estabelecido pela sociedade, esquecemos de analisar o custo de atingir esta meta. Nosso corpo cobra, tanto fisicamente quanto psiquicamente, o esforço de “não ser ouvido”.
Nossa cultura estabeleceu que é através do sofrimento e não do prazer que os benefícios, recompensas, acontecem. Não temos como objetivo viver o presente e sim fazer no presente tarefas que irão beneficiar-nos no futuro. O prazer que teremos em nossas vidas nunca é no momento e sim no futuro. O sacrifício passou a ser considerado positivo, mas o preço que ele cobra não é discutido pela sociedade. Até doenças como stress são mais aceitáveis no mundo profissional do que uma perna quebrada em uma queda indo ao parque.
Com tudo que os seres humanos estão descobrindo, com o progresso que estão gerando, estamos vivendo uma busca pela eficiência do ser humano, exigindo assim um grande esforço metal. Buscando tentar sanar os efeitos deste esforço psíquico nossos pesquisadores analisam quais hormônios são responsáveis por doenças nervosas e investem milhões na busca de novas drogas capazes de eliminar a alteração dos mesmos. Por mais que a sociedade tente discutir os efeitos de nossa “vida agitada”, o desejo da grande maioria ainda é ser “mais homem” (poderoso, rico) que os demais.
A velocidade com que a informação é transmitida, com a crescente ilusão que a conquista de bens materiais irá acabar com a falta que o ser humano sente, são fatores que tornam o cotidiano um ciclo sem fim. Cada dia inventamos novos “prazeres”, tecnologias, instrumentos, aparelhos, lugares, que vendem a sensação de que, uma vez atingidos, confortarão “eternamente” nossos desejos. Como essa falta nunca é apaziguada o ser humano continua buscando inovações, conquistas, desafios, em uma busca interminável para sentir-se “completo”.
Freud descobriu que não existe nenhuma relação entre as formas das doenças nervosas e as influências nocivas da civilização, como queriam Binswanger (conexão entre a neurastenia e a vida moderna com sua volúpia por bens materiais) e Von Krafft-Ebin (aspectos anti-higiênicos explicam as doenças nervosas), considerando o fator sexual como básico na causa das neuroses.
Através da psicanálise, descobriu que os sintomas desses distúrbios têm, em sua natureza, conteúdo sexual. Derivam das necessidades sexuais de indivíduos insatisfeitos, sendo os sintomas uma satisfação substituta.
Considerando a evolução da pulsão sexual existem 3 estágios de civilização:
- Pulsão sexual manifesta-se livremente, sem considerar reprodução;
- Pulsão sexual suprimido, exceto para reprodução;
- Reprodução legítima é admitida como meta sexual;
A moral sexual civilizada corresponde ao terceiro modelo: reprodução legítima admitida como meta sexual. O ser humano tem a capacidade de substituir ou sublimar o objetivo sexual original por outro, não mais sexual. Dada essa capacidade a pulsão sexual reprimida transformar-se em doença nervosa. É comum notar que a pessoa menos reprimida sexualmente possui uma baixa tendência a ter doenças nervosas, pois não ocorre a necessidade da substituição.
Mas este caminho apresentado por Freud não é “economicamente positivo”, a busca desta solução para minimizar as doenças nervosas não passa por laboratórios, investimentos, descobertas, enfim não potencializa o crescimento da economia. O rumo que estamos seguindo é apenas de transferência de uma doença nervosa para outra, pois nossa capacidade inconsciente para achar soluções é infinitamente superior a nossa racionalidade na busca dos mesmos.
