Um caso de histeria
Quando escutava comentários de professores e colegas sobre o quão maravilhoso era o tratamento de uma histérica, se comparada a uma pessoa obsessiva, reconheço que achava estranho. Pensava na diferença do discurso repetitivo do obsessivo e na busca constante da histérica. Essa busca, imaginava eu, deveria tornar a seção melancólica.
Por coincidência reli o texto freudiano sobre o Estranho (Freud Volume XVII), por motivos totalmente diferentes, mas que me fizeram pensar sobre meu sentimento de estranheza. Em parte deste texto relata-se o quão próximo estão os sentimentos de estranheza e familiaridade, dentre outras coisas.
Ao aprofundar-me sobre meu sentimento lembrei de um namoro específico que tive, totalmente diferente dos meus outros relacionamentos. Sempre tive receio de ter encontros amorosos com irmãs de amigos ou pessoas muito próximas aos mesmos. Como homem sabia que, assim como meus amigos não eram as pessoas mais indicadas a namorar minhas irmãs, eles deviam ter a mesma idéia a meu respeito. Penso que essa idéia é muito similar ao pensamento dos pais que acreditam não encontrar pessoas suficientemente boas para a filha deles, assim como podemos pensar o mesmo para nossas irmãs.
Enfim, mesmo sabendo que a irmã de um amigo achava-me interessante, não achei apropriado uma relação mais próxima, principalmente porque meus objetivos iniciais eram bem diferentes dos dela, pelo menos eu achava que sim. Naquela fase, como um bom homem solteiro, apesar de nunca ter sinalizado uma intenção de aproximar-me dela, sempre gostei das insinuações que recebia e, provavelmente inconscientemente, pedia mais. Em todas as oportunidades em que esta situação pudesse mudar encontrava soluções para que o “status quo” permanecesse o mesmo.
Durante um bom tempo gostaria que as coisas tivessem continuado daquela maneira, mas hoje penso que os fatos que ocorreram depois transformaram minha vida em algo mais aberto. Em um dos encontros “casuais” que tive com meu amigo, estava presente sua irmã. Sob uma mistura de ego ferido, Don Juan desiludido e muita bebida, tudo mudou.
Com a mudança de amigo para amante e com uma forte influência de um supereu punitivo senti a “obrigação” de pelo menos tentar algo mais. Logo veio a mudança de amante para namorado, prontamente aceita por mim. Acho que foi neste momento, o de tentar realizar o desejo insatisfeito de minha então namorada que tudo mudou. Quanto mais íntimos fomos ficando o ritmo das mudanças era estrondoso.
Dentro de pouco tempo me vi em uma luta interna entre minha curiosidade e revolta ao escutar a história de vida da moça. Ficava sempre intrigado e com sede de escutar novos capítulos de uma busca insaciável pelo homem que a completasse. Escutei as exigências que ela fazia aos seus ex-namorados, todas prontamente atendidas pelos mesmos. Relatos saudosos e carinhosos sobre pedidos não correspondidos por outros. A disputa com outras mulheres e o desejo de destruir o relacionamento de homens que ela desejava, segundo ela, coisas de juventude. Sempre que o homem terminava o namoro para ficar com ela seu desejo acabava. Namorou por um longo tempo com um homem que não queria casar, o maior sonho dela. Tudo isso somado a personalidade forte dela, intrigava-me.
Tantas “escolhas erradas” me revoltavam. Como uma pessoa tão inteligente havia agido de tal maneira? Como ela poderia não ter enxergado que aquelas atitudes e / ou pessoas não tinham como atingir os objetivos dela? Meu pesadelo começou no dia em que nasceu meu desejo de ser o porto seguro desta mulher. Via-me no papel ideal para cumprir com tudo aquilo que ela desejava e ter toda aquela energia canalizada para mim.
Com toda transparência que me é característica fui explorando a história de vida de minha companheira. Por mais que me sentisse ferido masculinamente, ao escutar sobre a vida amorosa da moça, continuava minha busca de informações. Ficava ainda mais surpreso com os debates que surgiam das histórias, sempre que acuada a senhora H partia para o ataque. Como tínhamos alguns valores e critérios totalmente diferentes e éramos ambos apaixonados por nossas idéias, o calor das conversas sempre era acima do bom costume. A solução dos impasses através do método socrático era inviável, pois sempre terminava em um “não acho”. Sua eterna busca pelo homem ideal me deixava sem graça e ao mesmo tempo precisava provar a mim mesmo que era capaz de atingir tal tarefa, falhei.
Filha de pais separados sempre buscou a atenção do pai, que vive com a segunda esposa e tem com esta o único filho homem. Não preciso nem citar a disputa que ocorre para ser a preferida do pai, envolvendo com isso a escolha de sua carreira profissional e do local de emprego, ambos aprovadíssimos por ele. Se algumas das irmãs ou o irmão recebesse algo que ela não considerasse justo, o que não era muito difícil de ocorrer, nascia uma discussão que regredia até a primeira festa de aniversário que a irmã ganhou e ela não.
Quando analiso hoje, vejo a ligação entre histeria e a senhora H. Lembro-me que ela tomava um remédio para um dor crônica que tinha no braço. Segundo ela, a solução para o problema seria fazer esporte, mas ela preferia tomar um medicamento, desnecessário dizer que este tinha sido prescrito por um de seus ex-namorados. Seu corpo era realmente uma válvula de escape para seus problemas, com freqüentes transtornos em situações de pressão.
As saídas familiares eram muito engraçadas, sendo ela e o pai as duas pessoas que conheço que mais tem opiniões similares. Certa vez ocorreu um debate sobre velocidade de carros na rua e quando fiz a “insanidade” de apontar que o comportamento “ditado” pelo pai não era seguido pela filha fui fitado furiosamente e escutei:
_ Pai, ele não sabe nada da minha vida, você sabe que sempre dirigi devagar.
Casos de desejos insatisfeitos são incontáveis. Hoje os vejo como hilariantes, na época não acreditava e não entendia o que estava acontecendo. O som do meu carro não pegava direito as estações. A temperatura do ar condicionado nunca era a correta. Tinha que vender meu bugre e comprar um jipe, pois era mais apropriado para andar nas trilhas de Minas Gerais, algo que ela não tinha o menor interesse em fazer, diga-se de passagem. Não posso nem chutar a quantidade de vezes que fui taxado de grosso, insensível. Certa vez fui recriminado por não usar calça jeans. Ainda em minha busca de tornar-me o homem ideal que finalmente conseguiria fazer da senhora H uma pessoa satisfeita, comprei uma calça jeans. Na primeira vez que a usei escutei:
_ Até que está melhor, mas a bainha da calça está muito feia.
Não tinha jeito, a tarefa de ser o homem ideal da senhora H tinha que ser transferida para o próximo da lista. Tendo sido sempre uma pessoa que buscava a racionalidade como solução para meus impasses esse relacionamento foi excelente. Nunca tinha entendido como pessoas inteligentes e capazes ficavam em relacionamentos desgastantes, sempre discutindo a relação, com as mesmas brigas, etc. Meus sentimentos de revolta e curiosidade foram detalhadamente tratados em minha análise gerando com isso um conhecimento novo e interessante sobre mim mesmo. Consigo hoje entender melhor as pessoas, as ilusões vividas por elas e a dificuldade em sair de determinadas situações. Como psicanalista ficou ainda mais claro ver como é fácil estar envolvido na trama da histérica, algo que deve ser totalmente rechaçado no tratamento.
